Podemos acreditar na vida antes da morte?
Celebrar 20 anos de acolhimento de jovens e crianças e risco.

1. Na entrevista concedida no passado mês de abril aoprograma “Alta Definição” da SIC, o humorista Luís Franco Bastos de 27 anos,que perdera recentemente os seus pais, deixava-nos em herança a seguinte frase: “Seja qual for a altura em que eu morra, hei-de morrer sempre feliz, porque passo a vida a fazer sorrir os outros!”

2. É verdade que nos devemos orgulhar de sermos nós, os portugueses, a descobrir o caminho marítimo para o Oriente; também devemos estar satisfeitos por já se ter chegado à Lua; devemos até ficar descansados por o nosso país estar praticamente todo ligado por auto-estradas; e ainda devemos ficar gratos à tecnologia por permitir uma comunicação global cada vez mais rápida e eficaz, mas... há um dilema comum que atravessa toda a estrutura da nossa sociedade, que se resume a um “problema de distância". Por vezes, conseguimos chegar mais depressa a um destino que fica a centenas de quilómetros da nossa residência ou entrar em contacto com alguém que reside na outra parte do mundo, do que tocarmos no coração daqueles que nos rodeiam. Mais: muitas vezes até olhamos os outros, mas não vemos (nem queremos ver) as feridas humanas que transportam em si. O que até então ficava longe, tornou-se agora mais perto; mas o que está perto, parece ficar cada vez mais longe. E por muito que nos custe, o maior medo de qualquer ser humano, mais do que não ter sustento ou saúde, é não sentir-se amado.

3. O Deus que os cristãos (católicos) professam é um Deus vivo, próximo e presente. Ele nunca fica off-line. Nunca fica sem rede, sem saldo ou sem bateria. Não tem horários nem prazo de validade. E quando decidiu enviar o seu filho Jesus ao mundo há 2000 anos, enviou-O com uma grande finalidade: ensinar como devemos viver. E a sua regra de vida é demasiado simples: amar-nos uns aos outros segundo o seu estilo (Jo 15,12) ou, por outras palavras, evitar que a distância impeça a nossa fraternidade e compaixão. De nada nos serve acreditar numa vida eterna, se descuidamos a nossa fé nesta vida que a precede. E porquê? Porque o jogo da nossa salvação, tal como num jogo de futebol, ganha-se nos pequenos pormenores que fazes pelos outros: nos pequenos gestos, nas pequenas lágrimas, nas pequenas palavras, nos pequenos sentimentos e, tal como o Luís Franco Bastos, nos pequenos sorrisos... que tu produzes nas suas vidas, fazendo encurtar assim as distâncias humanas que nos separam.

4. Ao celebrar-se neste mês os 20 anos do Lar da Criança de Revelhe, celebramos precisamente a fé na vida antes da morte. Durante este tempo, foramcerca de 150 crianças e jovens que, por diversas razões, precisaram de ser amadas, protegidas, respeitadas e valorizadas nesta instituição. Resta-nos, por isso, agradecer a Deus esta missão cristã que nos confiou, bem como as pessoas que construíram e constroem a história deste Lar, sempre prontas a aproximar-se, a gastar tempoe a amar estas vidas feridas, sempre disponíveis em moldá-las pelos pequenos pormenores, e sempre convictas que a felicidade não pode ser um privilégio de alguns, mas um direito de todos.

Por tudo isto, fica a pergunta: será que podemos não acreditar na vida antes da morte?
Podemos, mas não era a mesma coisa.

Pe. José Miguel